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2006/8/18

PEDRA DE FERIR

PEDRA DE FERIR FIRMAMENTO!

(Por que razão existem as injustiças humanas?)

 A Padre Ramos e Bruno Monteiro pela luta em favor dos desamparados. Dedico.

 "Se todos os seus esforços forem vistos com indiferença, não desanime.

Porque também o sol, ao nascer, dá um espetáculo todo especial,

E no entanto a maioria da platéia continua dormindo..."

Fátima Domingos

 I

Pedra ruím rolou:

- já era tempo de rolar!...

 Nuvem negra fugiu:

- já era tempo de fugir!...

Lágrima talhada caiu:

- já era tempo de cair!...

Vergonha insana afundou:

- já era tempo de afundar!...

 Contentar-me-ia em ver

O homem arredar pedra do caminho,

Afugentar nuvem pesada do céu,

Sentir vergonha na cara,

Enxugar lágrima sentida.

Lobo mal rosnou:

- já era hora de rosnar!...

Chuva ácida desabou:

- já era hora de desabar!...

Sangue azul esquentou:

- já era hora de esquentar!...

Mãos tremidas se deram:

- já era hora de se dar!...

Contentar-me-ia em ver

O homem se unir ao lobo,

Aproveitar-se da chuva,

Ver o sangue lhe subir à cabeça,

Dar as mãos.

II

Por que razão meu Deus

Ainda não se revoltou o meu tempo?

Por que razões

Existem as injustiças humanas?

Ó tempo breve em que convivo hoje e agora,

Quando tu proferirás ao homem a rápida resposta que lhe falta?

Ir-se-á ainda mais longe,

Até o atrelamento das revoltas subumanas e espirituais?

Que haverias de responder

Senão que o sofrimento nos aplica

Uma ação justa e defende uma causa verdadeira?

Ressalto-vos agora que tais revoltas vividas

Continuamente supõem outras,

As quais são imprescindíveis levar em conta

O que o homem tem à sua volta.

Por que razão

Ainda não se revoltou o meu tempo?

Por que razões

Existem as humilhações humanas?

Ó tempo ácido cuja revolta não se acovarda

Debaixo de tapetes sujos da alma,

Quando tu desvendarás ao homem o segredo da vitória que lhe falta?

Ir-se-á ainda mais adiante,

Até a fomedez das sandices humanas e materiais?

Observar-se-á já que tais insubordinações vividas

Sempre supõem outras,

As quais são mister levar em conta

 O que o tempo tem à sua volta.

III

Meu único tempo, que vaga ao léu no presente,

Terá que fazer a vergonha e a injustiça se arrepender de produzir covardia;

Terá que fazer a coragem se desprender do mármore do fogo eterno.

Mas não teremos sido, a esse respeito,

Vitimas de uma ilusão?

A vida é feita de lembranças e fomes

- da ordem de milhares –

E lembranças mal-paridas não são suficientes para desvendar

Bulimias e desilusões expressivas na constância da fomedez humana.

Se buscarmos encontrar subsídios elucidativos

A cerca da coragem de gritar contra as injustiças diárias

Tratemos de buscar novas portas,

Pois estas portas que os canalhas de plantão e de mandato vencido

Nos apresentam como forma heróica e salvadora de revolta,

Morreram como sanguessuga há milhares de anos.

Decerto, um outro caminho se abrirá:

O real avivamento de revoltas pessoais.

Poder-se-ia também transformá-las em levantes diários e duradouros.

O que vale dizer que será entupido

 O rego entre insatisfação e força,

E que ambas disporá de uma base popular

Para a luta e a ação.

IV

Mas, guardadas as devidas proporções,

Não existe nada além de seres humanos revoltados,

Ligados uns aos outros por uma série ilimitada

De insatisfações sociais.

Não se afligiu então a vida o bastante?

Ou não seria isto, ao avesso,

Uma seqüela desta utopia analítica mais animal?

Dispensarmo-nos por ideologias vagas e voadoras,

Não constitui procurar acrescer subsídios numerosos e ilusórios

Para entendermos finalmente que muitas utopias são prejudiciais.

Diante desta conjuntura insuportável,

Onde o ser humano não enxerga um palmo à sua frente,

Não é de assustar que os grupos opostos reagissem

Cada um de acordo com seu caráter ideológico.

Alguns optam apreciarem revoltas pouco substanciais,

Onde a coragem é suficientemente densa.

Outros abrem o abanador;

Outros ainda buscam uma saída medianeira.

No entanto,

Sempre cioso de enfocar meu ponto de vista,

Contentar-me-ei em advertir

O perigo da formação de insignificantes revoltas:

A licitude de correlação de forças humanas,

Mesmo baseada

Numa obstinação de adesões superiores

Às forças contrárias.

O resto é o resto!

É pura bobagem, negrume da rosa, assombração;

É medo de ser livre para voar.

 

Por Benny Franklin